Quero aprender francês

A França e seu idioma apresentados por um brasileiro

Tempos verbais em francês e em português

Como disse em outro texto, já perdi a conta de quantas vezes me disseram que francês é muito complicado “porque tem muito verbo”. Costumo rir comigo mesmo pensando: ainda bem que tem muito verbo – se não, como é que a gente ia se comunicar? Brincadeiras à parte, a afirmação, comum a quase todos os meus alunos, significa que não é fácil aprender a conjugação verbal da língua que eu ensino. E não é fácil, mesmo. Mas é bem menos complicado que em português. Vamos fazer uma comparação? Vou listar os tempos verbais efetivamente usados no idioma de Simone de Beauvoir, deixando de lado aqueles que só existem nos livros de gramática ou na literatura rebuscada, e dizer seus correspondentes em português. Não farei uma descrição exaustiva para não te deixar exausto (não mencionarei o impératif nem o gérondif, p. ex.), mas o que segue é o principal. Vou usar como exemplo o verbo faire (“fazer”) na primeira pessoa do singular.

Indicatif présent : je fais

Presente do indicativo (eu faço) ou “presente progressivo” (eu estou fazendo). A expressão être en train de, que corresponde a nossa construção com o gerúndio (je suis en train de faire) é muitíssimo menos usada do que seu equivalente em português. Normalmente, o contexto comunicativo ou um advérbio (maintenantactuellement, p. ex.) basta para determinar esse aspecto durativo. Usa-se o indicatif présent também no lugar do nosso futuro do subjuntivo, em hipóteses como “Se eu não estiver muito cansado, a gente pode ir ao cinema”, que dá “Si je ne suis pas très fatigué, on pourra aller au cinéma”.

O presente é o tempo mais difícil do francês, pois é aquele que concentra a maior parte das irregularidades. Ele também é um “pau-pra-toda-obra” pois, com os advérbios certos, ele pode expressar o futuro (“Demain j’arrive à neuf heures” = “Amanhã eu chego às nove”) e o passado (“Hier, je rentre chez moi et je vois mon chien qui mange mes chaussures” = “Ontem, chego em casa e pego meu cachorro comendo meu sapato”), dando mais vivacidade à ação designada. Como se vê, esse fenômeno também ocorre em nosso idioma; porém, parece-me que ele é mais frequente me francês.

Para mais detalhes sobre a tradução do nosso gerúndio, leia meu texto especialmente dedicado a isso.

Imparfait : je faisais

Pretérito imperfeito do indicativo (eu fazia) ou “imperfeito progressivo” (eu estava fazendo), com aquela observação já feita sobre a expressão être en train de. Usa-se o imparfait também no lugar de nosso pretérito imperfeito do subjuntivo, em hipóteses como “Se eu não estivesse cansado, a gente poderia ir ao cinema”, que dá “Si je n’étais pas fatigué, on pourrait aller au cinéma”. O imparfait ainda tem a vantagem de ter sempre as mesmas terminações, ao contrário do português, que tem vários tipos (eu cantavaeu faziaeu eraeu punha). Para o uso do imperfeito do subjuntivo em orações subordinadas do tipo “eu queria que você fizesse”, veja mais adiante.

Passé composé : j’ai fait

Alvo de incompreensões a recordista de reclamações dos alunos, o passé composé é o equivalente de nosso pretérito perfeito (eu fiz). Literalmente, significa eu tenho feito, e é usado no lugar dessa construção e de locuções como eu venho fazendo. Para marcar esse aspecto de repetição, pode-se empregar advérbios ou locuções adverbiais (dernièrementces derniers jours etc.). O passé simple (je fis) é típico da escrita culta ou literária e nunca é usado na língua oral ou na escrita cotidiana (jornais, e-mails, cartas…). A construção venir de (je viens de faire) indica o passé récent: em português, acabei de fazer.

Plus-que-parfait: j’avais fait

O mesmo que eu tinha feito. Em português falado, o pretérito mais-que-perfeito nunca é usado em sua forma sintética (eu fizera). Em francês, essa forma nem existe. Como você talvez já esteja desconfiando, o plus-que-parfait também serve para fazer hipóteses, quando se usa a conjunção si“si j’avais fait”, assim, significa “se eu tivesse feito”.

Futur simple: je ferai

Ao contrário de seu primo português, o futuro do presente (eu farei), o futur simple pode ser ouvido na língua oral. O chamado futur proche, construção com o verbo aller (je vais faire = eu vou fazer), serve para indicar algo mais imediato. Como em francês não existe o futuro do subjuntivo, o futur simple será usado em construções com quandau moment où etc: “Quand j’arriverai à l’aéroport, je t’appellerai” = “Quando eu chegar no aeroporto, te ligo”. Também entra em frases do tipo “Você poderá fazer o que quiser”: (“Tu pourras faire ce que tu voudras”) e com a expressão tant que (que se traduz como “enquanto”, no sentido de marcar um limite no tempo e não no sentido de marcar uma simultaneidade – nessa segunda acepção, diz-se pendant que), em frases do tipo “Enquanto houver injustiça, haverá razão para lutar” (“Tant qu’il y aura de l’injustice, il y aura une raison pour se battre”).

Futur antérieur: j’aurai fait

Literalmente, significa eu terei feito. Indica algo que vai acontecer no futuro antes de outra ação no futuro. Ex.: “Quand j’aurai fini mes études, je passerai un mois en Italie” = “Quando eu tiver terminado meus estudos, vou passar um mês na Itália”. Em português, não costumamos marcar esse aspecto conclusivo, e dizemos simplesmente “Quando eu terminar meus estudos…” Um outro valor do futur antérieur é o de indicar um passado hipotético: “L’accident aura été provoqué par une panne électrique” = “O acidente deve ter sido provocado [terá sido provocado, literalmente] por um defeito da parte elétrica”.

Conditionnel présent: je ferais

Equivalente ao nosso futuro do pretérito (eu faria), porém, a meu ver, mais usado em francês devido à própria cultura: franceses gostam de modular suas afirmações – em situações em que o brasileiro diria “Tem que ligar pra prefeitura”, o francês poderá dizer “Il faudrait (teria que) appeler la mairie”. A construção com o presente (il faut = tem que, é preciso) será usada quando se quiser dar um tom mais direto.

Conditionnel passé: j’aurais fait

Usado para hipóteses sobre o passado: eu teria feito.

Subjonctif présent: que je fasse

Equivalente ao presente do subjuntivo (que eu faça). Porém, enquanto o português ainda guarda na oralidade a concordância dos tempos (eu quero que você faça / eu queria que você fizesse), o francês já não se dá mais a esse trabalho (je veux que tu fasses je voulais que tu fasses). Uma frase com a concordância “certa” (com o subjonctif imparfait, inexistente na língua corrente: je voulais que tu fisses) soaria cômica, de tão rebuscada, e só será encontrada em literatura. Muito mais pode ser dito a respeito da diferença entre o português e o francês no uso do subjuntivo, mas isso fica para uma próxima ocasião.

Você deve ter percebido que, apesar de haver numerosos tempos verbais, muitos deles são, na verdade, tempos compostos que não acrescentam tanta complexidade à morfologia do idioma. Afinal, trata-se simplesmente de diversas combinações entre o auxiliar (être ou avoir) e o participe passé. Ainda assim, suponho que, depois dessa explicação, você vá me dizer: “Tá, continuo achando complicado!” Mas se você deixou de pensar que não dá para entender, já me dou por satisfeito.

4 comentários em “Tempos verbais em francês e em português

  1. silvinhasantos
    novembro 27, 2014

    Republicou isso em Silvinha Santose comentado:
    Olá pessoas!!!
    Gostei bastante deste resumo dos tempos verbais e a comparação entre o francês e português ajuda muito!!!
    Recomendo!!!!

  2. angelica martins seabra
    dezembro 15, 2017

    amei,me ajudou bastante.merci,angelica martins seabra

  3. angelica martins seabra
    dezembro 15, 2017

    amei,merci

  4. angelica martins seabra
    dezembro 15, 2017

    amei,me ajudou muito

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Publicado em agosto 23, 2013 por .

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